O projeto estimula a reflexão sobre o papel desempenhado pelo património cultural na recordação de memórias e sobre o potencial da história oral para a investigação. Neste post, Agiatis Benardou entrevista Anna Maria Droumpouki, historiadora da Freie Universität Berlin e coordenadora científica do projeto, sobre os desafios de conceber entrevistas para recolher testemunhos, a própria experiência de os recolher e as implicações da sua disponibilização em linha.
Memories of Occupation in Greece é um projecto apoiado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão, a Fundação Stavros Niarchos, a Fundação Erinnerung, a Fundação Verantwortung und Zukunft e a Freie Universität Berlin. O projeto recolheu e arquivou testemunhos audiovisuais sobre a ocupação alemã da Grécia (1941-44). Para este fim, um total de 93 entrevistas foram realizadas na Grécia com testemunhas do período, incluindo membros de organizações de resistência, crianças escondidas, sobreviventes da Shoah judaica, prisioneiros de campos de concentração, testemunhas de retaliação e outros indivíduos que experimentaram o período doloroso de várias maneiras. As entrevistas foram digitalizadas e disponibilizadas num portal Web trilingue e estão disponíveis para fins de investigação, educação e formação.
Qual foi a metodologia utilizada durante a conceção e organização das entrevistas com os sobreviventes?
Os entrevistadores seguem o método biográfico-narrativo descrito pelo Dr. Alexander von Plato (uma autoridade internacionalmente reconhecida em história oral e um dos principais historiadores orais da Alemanha). Os entrevistados têm a oportunidade de contar a história de toda a sua vida sem interrupções, estabelecendo as suas próprias prioridades e seguindo uma estrutura associativa ou cronológica que considerem adequada. Isto é feito na primeira fase (aberta) da entrevista, que é introduzida com a pergunta geral: «Poderia, por favor, contar-nos a história da sua vida?»
Embora o principal interesse de investigação do projeto «Memórias da ocupação da Grécia» seja o momento da ocupação, as entrevistas realizadas abrangem toda a vida das testemunhas contemporâneas. Esta decisão de realizar entrevistas biográficas foi tomada devido à importância do caráter e da história do sujeito antes da ocupação para a compreensão do seu comportamento e ações durante a ocupação. As memórias do tempo após a ocupação são importantes, uma vez que a experiência tem um efeito em toda a vida do indivíduo.
Pode descrever sucintamente a forma como as entrevistas foram realizadas?
Os entrevistadores preparam-se completamente para a entrevista. Possuem um vasto conhecimento da ocupação alemã da Grécia e foram informados sobre as circunstâncias específicas da pessoa a ser entrevistada, permitindo-lhes compreender cada história de vida individual em sua complexidade. Além disso, os entrevistadores preparam perguntas para auxiliar na compreensão da biografia de cada indivíduo e dos eventos ocorridos durante a ocupação. Por uma questão de princípio, as entrevistas são conduzidas com respeito e empatia.
Fotografias, documentos ou artefactos são examinados em conjunto, a fim de trazer de volta memórias. Após a entrevista, o entrevistador completa uma breve biografia e um protocolo de entrevista com uma descrição da situação da entrevista. O sujeito da entrevista recebe uma cópia escrita da entrevista.

Quais foram os principais desafios que enfrentou durante as entrevistas e a recolha de dados?
Os desafios eram muitos. Um desafio importante foi a conceção e criação do portal com as entrevistas preservadas no seu formato digital e complementadas com outras fontes e materiais como palavras-chave, títulos, separadores e informações qualitativas e resumos. A criação de uma melhor funcionalidade de pesquisa e de utilizador também foi fundamental.
Como lidar com as questões de ética e privacidade que surgem durante as entrevistas?
Os interessados podem ter acesso ao material depois de se registrarem no portal. Este acesso restrito é importante para salvaguardar a privacidade pessoal das testemunhas. As próprias testemunhas também assinaram um acordo escrito que autoriza a utilização das suas entrevistas para fins educativos e históricos.
Tem informações sobre se e como as entrevistas foram utilizadas (para fins de investigação ou outros)?
Sim, houve várias apresentações do projecto a conferências internacionais. A equipa científica do projeto publicou alguns artigos revistos por pares para revistas académicas internacionais e já foi preparado material educativo para escolas na Grécia e na Alemanha.
Como pensa que as instituições responsáveis pelo património cultural devem abordar a partilha de histórias orais?
A prática da história oral nas instituições culturais está bem estabelecida, embora a história oral seja marginalizada no meio académico. Os museus e as instituições culturais incluem testemunhos em vídeo nas suas exposições como uma ferramenta de exposição eficaz e são agora considerados como elementos integrantes tanto na narrativa como no design da exposição.
