Obrigado por falar connosco hoje! Pode falar-nos da sua instituição?
Os Museus Nacionais da Cultura Mundial são responsáveis pelas coleções não europeias na Suécia. Dentro desta administração há quatro museus: em Estocolmo, o Museu de Antiguidades do Extremo Oriente, o Museu de Antiguidades Mediterrânicas e do Próximo Oriente e o Museu Etnográfico; Museu das Culturas Mundiais, em Gotemburgo.
Em que se concentra o seu trabalho? E como foi desenvolvido?
Em conjunto, os Museus Nacionais da Cultura Mundial da Suécia e a Universidade de Gotemburgo lideram um projeto intitulado «Repatriação digital do património cultural no hemisfério sul». Este projeto centra-se na base de dados sueca das coleções de museus «Carlotta», em especial nas representações digitais de objetos originalmente pertencentes a comunidades indígenas da Amazónia brasileira, em especial Wai Wai.
Nos últimos meses, o nosso objetivo tem sido experimentar uma ferramenta para melhorar a descolonização dos dados, em termos de alterar o equilíbrio de quem está a produzir conhecimentos para quem e para quem. A ideia ocidental do arquivo e das tradições museológicas que as coleções suecas refletem pode trazer consigo problemas de categorização imprecisa ou problemática e os vestígios de crenças racistas. Por exemplo, a base de dados Carlotta não permite que os utilizadores criem novos caminhos que liguem objetos armazenados na Suécia a povos e comunidades indígenas, aos quais o projeto visa dar voz enquanto partes interessadas mais importantes. Na imagem que conduz este post, pode-se ver Eliane Waiwai, contando o mito da produção de mandioca através dos objectos. Os objetos eram previamente rotulados pela função (produzir mandioca) mas com a entrada de Eliane compreendemos a sua relevância para a história, um mito da criação. O novo contexto não é "apenas funcional", mas coloca os objetos na história do povo Wai Wai.
Em cooperação com académicos da Universidade de Brasília, a equipa do projeto iniciou um projeto-piloto que utiliza uma ferramenta de código aberto desenvolvida por eles - Tainacan - que permite criar coleções digitais na Internet, abrindo novas possibilidades de diálogo e discussão sobre o poder dos dados em termos de descolonização das coleções.
Qual foi o resultado - como alguém pode usá-lo?
Trabalhámos no relatório com a convicção de que a nossa experiência com o Tainacan poderia incentivar novas formas de cocurar e recategorizar o património cultural, bem como o diálogo aberto através de meios digitais. Esperamos que outras instituições possam utilizar a ferramenta e testá-la noutras coleções, com base nas nossas conclusões.
O que aprendeu com esta experiência de crowdsourcing para o património cultural?
Aprendemos que, embora se tenha escrito muito sobre a descolonização das bases de dados, não é fácil encontrar exemplos práticos. Com o Tainacan e os novos plug-ins criados pela equipa, parece que temos uma oportunidade real de envolver as pessoas através do crowdsourcing. Precisávamos de uma ferramenta que pudesse ser usada com má internet, em áreas com má ligação, como o Amazonas neste caso.
Como podem as iniciativas de crowdsourcing ser concebidas para satisfazer as necessidades dos investigadores?
Neste caso, é uma obrigação. Sem o envolvimento dos investigadores, nunca poderíamos ter a discussão dentro da nossa instituição, não só por causa dos recursos, mas ideologicamente precisávamos de ideias vindas de fora.
Quais são os seus planos para o futuro do projecto?
Temos planos para continuar a explorar as possibilidades que foram abertas neste processo. Criámos um protótipo de uma base de dados, mas precisamos de ser testados por muitos intervenientes. Estamos atualmente à procura de fontes de financiamento e, com isso, esperamos desenvolver o nosso projeto-piloto de uma forma mais estruturada.
Obrigado por nos falar sobre o projecto!
Esta entrevista foi escrita em colaboração com Dalton Lopes Martins, da Universidade de Brasília; Cinthya Lana, Universidade de Gotemburgo; Luciana Conrado Martins, Universidade de Brasília; e Joyce Siqueira, Universidade de Brasília.
