Em toda a Europa, as organizações responsáveis pelo património cultural enfrentam um desafio crucial: como manter a sustentabilidade, mantendo-se significativo e inclusivo numa sociedade em rápida mutação. O projeto RECHARGE, financiado pelo programa Horizonte Europa, passou os últimos três anos a abordar esta questão de forma frontal. Um consórcio de dez parceiros coordenado pela Universidade Erasmus de Roterdão, o RECHARGE reúne uma rica combinação de conhecimentos especializados, desde museus e instituições responsáveis pelo património cultural a grupos de reflexão, universidades, associações e fundações europeias. Ao experimentar modelos de negócio participativos e incorporar a colaboração em todas as fases, a RECHARGE forneceu às organizações culturais ferramentas práticas e novas perspetivas para moldar o futuro do nosso setor.
No seu cerne, a RECHARGE consiste em repensar a forma como as organizações responsáveis pelo património cultural se envolvem com as suas comunidades. Em vez de agir como controladores de acesso, o projeto prevê as instituições como facilitadoras, criando oportunidades para as pessoas não só acederem a coleções, mas também para cocriarem, codecidirem e serem coproprietárias do património cultural. Esta visão ressoa com muitas organizações que já estão a trabalhar no sentido de se ligarem a públicos diversificados, mas leva ainda mais longe a ambição ao incorporar a participação na governação, no financiamento e na estratégia a longo prazo.
Do Living Labs à mudança do mundo real
A RECHARGE conseguiu esta transformação através de uma metodologia Living Labs: ambientes do mundo real em que as organizações podem testar e aperfeiçoar modelos empresariais participativos. O projeto começou com três laboratórios vivos e, mais tarde, deu a seis outras organizações europeias a oportunidade de participar no projeto, experimentando abordagens que convidavam as comunidades, os profissionais e os decisores políticos a colaborar. Estas experiências geraram informações concretas sobre o que funciona, o que não funciona e o que precisa de mudar, tanto a nível institucional como político.
A experiência do projeto mostrou que a participação não é um seminário ou uma consulta pontual, mas uma prática contínua. Requer tempo, recursos e, acima de tudo, uma vontade de partilhar a tomada de decisões e o poder. Isto nem sempre é fácil para as organizações habituadas a trabalhar em estruturas tradicionais, mas o projeto demonstrou que conduz a ligações mais fortes com as comunidades, estratégias de reforço da confiança e formas de trabalho mais sustentáveis.
Roteiro para a participação
Um dos resultados da RECHARGE é o seu conjunto de recomendações políticas. Estes proporcionam um quadro abrangente para reforçar o papel das organizações responsáveis pelo património cultural na Europa. As recomendações preconizam a integração de abordagens participativas nas políticas, nos regimes de financiamento e nos quadros institucionais, assegurando que a participação não é apenas uma aspiração, mas uma prática apoiada.
As recomendações destinam-se a um vasto público:
responsáveis políticos e decisores a nível europeu e nacional, que podem integrar a participação nos mecanismos de financiamento e nas prioridades estratégicas.
Redes e alianças que ligam profissionais de todo o setor do património cultural, que podem utilizar estes conhecimentos para reforçar a colaboração e a defesa de causas.
As próprias organizações do património cultural – dos museus aos arquivos e às indústrias criativas – que procuram formas práticas de diversificar os fluxos de receitas e construir estruturas de governação inclusivas.
Para cada um destes grupos, o benefício é claro: A adoção de modelos empresariais participativos reforça a sustentabilidade, promove a inovação e garante que o património cultural continua a ser relevante para as comunidades em toda a Europa.
Lições aprendidas ao longo do caminho
Os parceiros da RECHARGE aprenderam lições valiosas com esta viagem. Entre as mais importantes conta-se a tomada de consciência de que as organizações responsáveis pelo património cultural devem estar abertas à experimentação. Ao testar novos modelos empresariais participativos, as organizações podem descobrir oportunidades para diversificar os seus rendimentos e, ao mesmo tempo, aprofundar as suas ligações com as comunidades.
Outra lição fundamental é que a participação tem de ir além do desenvolvimento do público. Quando diversas partes interessadas são convidadas a participar nos processos de governação, partilha de recursos, conhecimentos e responsabilidade, os resultados são mais inclusivos, mais resilientes e, em última análise, mais impactantes. Esta mudança exige coragem e empenho, mas oferece um caminho para organizações que não são apenas culturalmente significativas, mas socialmente indispensáveis.
Evento final de RECHARGE: celebrar o progresso
Em 11 de setembro, realizou-se em Prato, Itália, o evento final RECHARGE. Mostrou as realizações do projeto e os ensinamentos retirados. As apresentações dos nove Laboratórios Vivos destacaram como as metodologias participativas promovem a experimentação, o envolvimento da comunidade e as estratégias de projetos iterativos. Os parceiros do projeto demonstraram como o manual RECHARGE apoia as organizações na conceção de laboratórios vivos, na compreensão das necessidades das partes interessadas e na testagem de modelos de negócio participativos. Os participantes também exploraram a Base de Conhecimento, com ferramentas práticas, investigação e recomendações políticas.
Os debates sobre modelos empresariais participativos salientaram a integração de práticas participativas a par de novas estratégias de receitas. As recomendações políticas do projeto abordaram os obstáculos à participação, às parcerias a longo prazo e à sustentabilidade financeira.
O painel final salientou a importância da confiança, da regulamentação e da cocriação genuína para reforçar a democracia cultural. O evento foi um sucesso, plantando sementes para um impacto duradouro para além do projeto.
Porque é que é importante?
Para os profissionais do património cultural, os resultados do RECHARGE oferecem mais do que ideias abstratas: fornecem estratégias concretas para enfrentar os desafios atuais. Quer trabalhe num pequeno museu local ou num grande arquivo nacional, os princípios da cocriação, da cogovernação e da copropriedade podem ajudá-lo a reforçar a sustentabilidade e a pertinência da sua organização.
Para as redes e os decisores políticos, o projeto fornece recomendações baseadas em dados concretos para fundamentar as decisões, afetar recursos e conceber quadros que reflitam as realidades atuais.
Mais informações
O futuro do património cultural é tornar-se mais participativo e inclusivo. Podes ajudar a moldá-lo. Visite a plataforma RECHARGE para explorar todas as recomendações políticas e descobrir ferramentas práticas para a sua organização. Partilhe estas informações, inicie conversações e defenda com os decisores políticos de toda a Europa a fim de assegurar que o património cultural se torna mais inclusivo, sustentável e resiliente.
